Madrinha Dnª Maria Victória

A nossa força começa cá fora.

 

Começou por ser a mascote do grupo com apenas 20 meses de idade, passados «alguns» anos continua a acompanhar-nos, mas agora como a nossa orgulhosa Madrinha!
Esta é a nossa singela homenagem a uma Grande Senhora que tem dedicado grande parte da sua vida em prol do seu GRUPO, A Madrinha do Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, Dona Maria Victória Lopes.
Abaixo, inclui-se um texto que escreveu para o livro do Jantar de Final de Época do Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, em 21 de Dezembro de 1996. Um verdadeiro documento histórico contado na primeira pessoa.

“Em 12 de Abril de 1932, o então presidente da Câmara Municipal de Vila Franca, Sr. Vanzeller Pereira Palha, pediu a meu pai – Vasco da Rocha Lopes – que tinha então 29 anos, para arranjar um grupo de rapazes que constituísse um Grupo de Forcados de Vila Franca de Xira para pegarem na festa do 1º Colete Encarnado, fundado pelo Sr. José Palha, que nesse ano foi a 16 de Julho de 1932 – dia de Nossa Senhora do Carmo, nome da mãe do Sr. José Palha – há programas que relatam a data e os nomes dos elementos do Grupo Fundador.

Como a experiência foi um êxito, o meu pai decidiu de acordo com os outros elementos, fundar oficialmente o Grupo, em 8 de Outubro de 1932 e daí ainda hoje a tradição se manter de o Grupo de Vila Franca pegar na corrida 3ª Feira Nocturna, da Feira Franca de Outubro.

O Grupo foi constituído por:

Cabo – Joaquim Franco de Vila Franca de Xira,
Horácio Cunha de Pedrógão de Sobral de Monte Agraço,
Luís Ferreira (Luís Torto) de Arruda dos Vinhos,
Daniel Serafim de Vila Franca de Xira,
Júlio Santos (Júlio Aferidor de Balanças) de Vila Franca de Xira,
Fortunato Simões da Malveira,
Vasco da Rocha Lopes de Sobral de Monte Agraço,
José Plácido (José Minhoca) de Vila Franca de Xira,

Cito as terras da naturalidade de cada um dos componentes do Grupo, para mostrar aos mais incrédulos que quando eu digo que o meu pai foi o fundador, não se trata de atribuir louros a ninguém mas apenas a verdade!

Pois meu pai era também natural do Sobral de Monte Agraço de onde veio com 11 anos, após o falecimento do meu avô, veio aprender o ofício de cortador com o Arnaldo Reitas e Vila Franca de Xira que tanto amava, foi sempre a sua terra de adopção e daí estarem dois elementos, um do Sobral e outro da Arruda que foram convidados por meu pai e assim se formou um grupo de amigos, pois o que interessa é a amizade que une qualquer Grupo, seja de que modalidade for e não as suas origens.

Desculpem este interregno, apenas para que fique claro de uma vez por todas “o seu a seu dono”, o porquê de ter sido eu “a mascote” do Grupo, com 20 meses. Pois o Grupo foi fundado oficialmente em 8 de Outubro de 1932, repito, e o meu falecido irmão só ter nascido a 12 de Abril de 1933.

Como referência curiosa, o Grupo pegou pela 1ª vez com fatos emprestados pela Sociedade de Beneficência de Vila Franca de Xira e se repararem bem na foto do Grupo Fundador, eu tenho peúgas e sapatos meus, pois tinha o fato completo com sapatos de patuleia e tudo, até o forcado foi feito à minha altura pelo me avô materno. Eu estava em casa dos meus avós em Alhandra, meu pai tinha-me trazido na véspera e minha mãe vinha de Arruda trazer-me o fato, mas a camioneta chegou atrasada, e havia que tirar a fotografia na tarde do dia da fundação, desse por onde desse, então lá vestiram a rapariga com o fato do folho do Arnaldo Reitas que era mais pequeno do que eu e daí eu ter a perna à mostra entre o calção e a peúga.

Perguntarão talvez, porque é que eu sendo tão pequena tenho tudo isto tão presente? Acontece, que os meus pais viviam com tanto amor ao Grupo e como na época não havia televisão, as horas das refeições era o encontro da família e tudo se conversava, além disso eu acompanha o Grupo nas suas deslocações. Lembro com saudade que enquanto se dava a lide a cavalo eu estava ao colo de meu pai ou de algum elemento do Grupo e quando tocava para a “unha”, assim se chamava na época à pega de caras, lá ia eu para o colo dos cavaleiros, naquela altura eram quase sempre o mestre João Branco Núncio ou Simão da Veiga Jr., entre outros. Eram tardes de calor (como sabem as touradas são na primavera e verão) o sono apertava e encostava a cabeça ao ombro do cavaleiro e dormia uma “sestinha”.

Hoje recordo com saudade a ternura com que o mestre João Núncio colocava o queixo sobre minha carita de criança … e o que eu adorava aquele “mimo”.

Era de tal ordem o amor ao Grupo que tinha meu pai, que minha mãe me pedia sempre, quando falecesse, o que ocorreu há 3 anos, o seu corpo fosse levado da igreja após a missa até ao cemitério pelo neto e alguns dos forcados que ele sabia bem que iriam estar presentes (e o meu pai já havia falecido há 33 anos, apenas com 47 anos) e eles lá estavam… cumprindo a ultima vontade de minha mãe e acompanhados com uma grande coroa de flores!

Repetindo mais uma vez, quem tiver a ideia de que o forcado é rude, varra esse conceito de uma vez por todas, pois são aqueles que dão tudo e nada pedem em troca. Com a mesma coragem e valentia com que citam o toiro, praça a praça, assim é a grandeza do seu coração.

Eu sou testemunha disso e tinha um numero infindável de gestos de bondade, sensibilidade e gentileza recebido deles, para realçar apenas alguns casos dos muitos que tenho sido alvo por gerações de outrora e do actual Grupo capitaneado pelo Jorge Faria. Em 26 de Setembro de 1977, houve um almoço de confraternização com os forcados mais antigos e os da época nas arcadas da praça de toiros de Vila Franca, servido pelo saudoso José Miranda, não se esqueceram de mim e de minha mãe, meu pai já havia falecido em 16 de Setembro de 1950. Nos 50 anos do Grupo, houve uma grande festa e no jantar de 9 de Outubro de 1982, ainda com a minha mãe presente, pois faleceu em Maio de 1983, eu fui nomeada Madrinha do Grupo pois já tinha 52 anos e era muito grande em tamanho para continuar a ser mascote. No sábado, 9 de Abril de 1988 homenagearam o único elemento vivo do Grupo fundador, o Daniel Serafim e eu lá estava presente, assim como em todos os jantar de fim de época, onde sou sempre convidada.

Ultimamente, a 1 de Julho de 95, pelo Colete Encarnado fui convidada para um almoço informal, diziam eles, quando vejo aparecer o Sr. Presidente da Câmara Municipal, Daniel Branco, o Presidente da Assembleia Municipal, Sr. José Ernesto Cartaxo, a Sra. Vereadora da Cultura e Turismo, Dona Alice Grazina e o Vice Governador Civil de Lisboa, Sr. António Machado Lourenço, também ele ex-forcado do Grupo de Vila Franca, assim como os seus irmãos José e Jesus Lourenço. Fui então nomeada sócia de Mérito, ofereceram-me então um pergaminho assinado pelo cabo Jorge Faria e colocaram-me ao pescoço uma medalha alusiva ao acto tendo o emblema da tertúlia no verso. Também fui obsequiada com um lindo ramo de rosas vermelhas e um livro do Salão do Cavalo, alusivo a José Mestre Baptista, que tinha sido efectuado em Maio último, com uma linda dedicatória do Sr. Daniel Branco e assinada por todos os elementos oficiais. A emoção só me deixou dizer, olhando o céu e beijando a medalha – A ti Pai que foste a origem de tudo isto!

Em agradecimento, como este ano a corrida Nocturna de 3ª feira coincidiu com o mesmo dia data de fundação em que o Grupo comemorava 64 anos, tentei fazer no intervalo da corrida de 8 de Outubro de 1996, uma homenagem ao Forcado e tenho de agradecer aos empresários da Praça de Vila Franca, António Manuel Cardoso e Rogério Amaro, ambos ex forcados de Alcochete e Vila Franca respectivamente, por já há alguns anos eles dedicarem a 3ª Feira Nocturna á Exaltação do Forcado Vilafranquense. Por isso, como para o ano já não sei se estarei entre os vivos, pois só Deus sabe, decidi homenagear os meus rapazes da jaqueta das ramagens pelos 64 anos de vida do Grupo. Agradeço também ás entidades oficiais atrás referidas que adiaram uma reunião de trabalho para poderem estar presentes, a meu pedido e á Direcção Geral de Espectáculos e ao Director de Corrida por me terem autorizado a fazer essa homenagem. Bem hajam!

Que nunca fiquem ofendidos os Cabos de forcados por não os citar, conhecendo-os a todos, mas pelo muito respeito que merecem, saúdo-vos a todos sem excepção. Mas um homem só nunca vai a lado nenhum e todo o trabalho de Grupo, a dedicação, o amor, a dignidade com que envergam a jaqueta das ramagens, o que me sensibiliza e agradeço, embora saiba que o Grupo tem de ser disciplinado, orientado e dirigido por alguém que tenha essa responsabilidade. A todos os cabos de forcados do país e a todos os rapazes das jaquetas das ramagens, a minha saudação amiga e respeito. Pois vós, sois de todos, os melhores embaixadores das terras que representam, têm sobre os vossos ombros uma grande tarefa – levar bem alto o nome da vossa terra! Que o público os compreenda, pois ás vezes exigem demais. Quando os toiros não têm condições para ser pegados, não podemos exigir dos forcados o impossível, eles são os únicos que dão o abraço amigo ao toiro, não estamos no tempo de Nero em que os Cristãos eram lançados ás feras. Já meu pai dizia – Dói mais a injustiça do público que a cornada do toiro. Peço que não esqueçam nunca que os forcados são genuinamente Nacionais, como o fado e a saudade, por isso, nos merecem todo o carinho e respeito, já é tempo de acabar com a ideia de que o forcado é o parente pobre da Festa. Eles são o complemento da lide a cavalo, mas enquanto o cavaleiro espeta a farpa no toiro que fica enraivecido e dorido, é o forcado que vai receber o embate corpo a corpo e lhe dá o abraço amigo e nunca sabe, quando salta a teia, se volta com vida… Saibamos respeitar o Forcado! Com todo o devido respeito que a lide a cavalo merece e aos respectivos cavaleiros que muito estimo e admiro.

Com base ou pedra filosofal, aqui fica patenteado todo o carinho e admiração pelos forcados a quem abraço efusivamente, seja ele de que grupo for. A amizade é um sentimento maravilhoso quando é sincero e cultivado. Sejam todos amigos, é tão bonito e dão o exemplo de civismo. Com todo o amor e gratidão, digo bem alto e do fundo do coração – Vivam os forcados de Portugal! Vivam os meus queridos rapazes dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, sejam eles de que terra forem, e alguns vêm de bem longe e dizem sempre presente. Por tudo isto, pelo muito bem que lhes quero, um abraço tão apertado quanto amigo que os envolva a todos, sem distinção de raça, credos ou ideias. Beijo-os um a um com todo o amor, sejam de ontem, de hoje ou de amanhã. A Madrinha muito amiga que lhes pede – nunca deixem morrer o Grupo de Vila Franca, conto convosco. Viva Vila Franca meus queridos Forcados de vila Franca, sei que posso contar sempre contigo, forcado amigo!

A Vossa Madrinha
Maria Victória Lopes
21 de Dezembro de 1996″